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EUA deveriam mandar vacinas paradas 'imediatamente' ao Brasil

25 de mar. de 2021
3 min de leitura

Akiko Iwasaki , pesquisadora de Yale, volta os olhos para os problemas enfrentados no Brasil.


Pouco depois das primeiras notícias de infecções por um novo coronavírus na China e muito antes que a doença chegasse aos Estados Unidos, onde mataria 540 mil pessoas em um ano, a cientista Akiko Iwasaki direcionou todos os recursos de um laboratório de pesquisa em imunologia e virologia na Universidade Yale para entender o Sars-CoV-2, o vírus responsável pela covid-19.


De lá pra cá, a equipe de Iwasaki publicou mais de 20 artigos científicos que respondiam algumas das questões centrais sobre a doença.


Agora, os olhos de Iwasaki se voltam para o Brasil.


"A situação, de fato, é terrível no Brasil. Os hospitais estão lotados, não há leitos de UTI suficientes, alguns lugares até estão ficando sem oxigênio. Esta é uma situação crítica", disse Iwasaki em entrevista à BBC News Brasil.


Preocupação de Iwasaki surgiu ao se debruçar em dados disponíveis sobre Manaus. Estimativas feitas após uma forte primeira onda de infecções em 2020 sugeriam que cerca de 75% da população da capital do Amazonas teria anticorpos contra o SARS-CoV-2, o que poderia indicar que essas pessoas estariam relativamente protegidas de novas investidas do coronavírus.


Meses mais tarde, no entanto, uma segunda onda ainda mais letal varreu Manaus. Em meio à falta de medidas de contenção da circulação do vírus, uma nova variante aparentemente foi capaz de driblar a imunidade que três em cada quatro manauaras talvez já tivessem conquistado. Era a chamada P1.


Para Iwasaki, esse cenário acendeu dois alertas. Primeiro, reforçou a hipótese de que as pessoas poderiam ser reinfectadas pelo Sars-CoV-2, mesmo tendo anticorpos contra ele criados durante a primeira infecção.


Segundo, algo parecido poderia acontecer com pessoas que receberam vacinas feitas com base em variantes mais "antigas" do vírus. Mas ela ressalta que os indícios apontam que as vacinas conferem proteção contra as novas variantes, e que essa não é sua principal preocupação.


"É provável que as vacinas existentes ofereçam proteção significativa. Minha única razão para sugerir a vacina feita com o spike da P1 é porque a P1 parece ser capaz de reinfectar pessoas que já tiveram a infecção original de SARS-CoV-2. Isso implica que a resposta imune induzida pela proteína spike original (e todas as outras proteínas virais) pode ser ineficaz na proteção contra P1", diz a especialista.


"Uma das vantagens do uso da vacina de RNA mensageiro (produzida pela Pfizer e pela Moderna) é sua versatilidade. O RNA mensageiro da P1 (ou de qualquer outra variante)pode ser usado para fazer uma vacina que seja perfeita contra ela e ofereça uma proteção mais forte", explica Iwasaki.


Para ela, no entanto, o Brasil precisa do máximo de doses das vacinas disponíveis, mesmo sem que elas sejam perfeitamente adequadas à P1. Até agora, o país aplicou ao menos uma dose de vacina em apenas 6% da população.


"Não quero que minha sugestão crie uma situação do tipo "o ótimo que é inimigo do bom". A questão mais importante e urgente é distribuir as vacinas existentes para as pessoas no Brasil, o mais rápido possível", argumenta Iwasaki.


Há uma escassez de vacinas e insumos no país. Em 2020, o governo Bolsonaro apostou todas as suas fichas em apenas uma vacina, a AstraZeneca-Oxford, que seria produzida pela Fiocruz no Brasil. O imunizante, no entanto, apresentou problemas nos estudos, o que atrasou em meses sua liberação e produção.


Além disso, o governo federal também boicotou publicamente a Coronavac, do Instituto Butantan em parceria com a China, e rejeitou ofertas de dezenas de milhões de vacinas de doses de fabricantes como a Pfizer.


Nos últimos meses, com o agravamento da pandemia no país, passou a tentar comprar vacinas de diversos fabricantes, mas esbarra na escassez de doses disponíveis para entrega em curto prazo. Isso explica a lentidão na imunização dos brasileiros.



Por Mariana Sanches - BBC News

Foto: Reuters


fonte: BBC


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